"Entretanto, andaremos para aqui às apalpadelas, às cegas, queixou-se o presidente. O silêncio foi daqueles que embotaria o gume da mais afiada das facas. (...) Do fundo da sala, ouviu-se a voz tranquila do ministro da cultura, Tal como há quatro anos."
(...)
"(...) o voto branco é uma manifestação de cegueira tão destrutiva como a outra, Ou de lucidez, disse o ministro da justiça, Quê, perguntou o ministro do interior, que julgou ter ouvido mal, Disse que o voto em branco poderia ser apreciado como uma manifestação de lucidez por parte de quem o usou."
in Ensaio Sobre a Lucidez, Saramago
Esta é a referencia que insere o Ensaio Sobre a Cegueira no livro Ensaio Sobre a Lucidez, uma ideia que considero fantástica, aprofundando o enredo da história.
É claro, como qualquer livro de Saramago, este também é "difícil" de ler: exige muita atenção, paciência, e por vezes até um dicionário! (Mas não esperem encontrar o significado de "têvê", o escritor também gostava de neologismos).
Apesar de exigente é um livro fantástico até ao mais ínfimo pormenor. Quem ler os diálogos julga estar presente de transcrições de conversas reais, até porque estas personagens sem nome (apenas título), apresentam maneirismos e tendências de alguns políticos que conhecemos.
O seu linguarejar, exagerado, chato, aborrecido mesmo! Levam qualquer audiência ao seu mais profundo desinteresse. Isto, segundo o nosso autor, e dito pelas palavras dos próprios ministros (não confundamos, estamos a falar no livro), serve para "amolecer o povo" e "fazer dele o que se quiser".
Também neste livro se manifesta a tremenda importância do voto, em especial do voto branco e do seu significado.
Mas por favor, não se misture o significado de branco com nulo - pois o nulo está previsto em lei que nada provoca, à excepção da demonstração de que houve quem se desse ao trabalho de ir às urnas para surtir efeito nenhum - aliás, este é o significado de nulo.